CASO RODRIGO CAIO E A ÉTICA NO ESPORTE

A atitude do atleta do São Paulo, Rodrigo Caio, foi realmente surpreendente, mas não deveria ter sido.

O lance aconteceu no primeiro tempo do clássico entre São paulo e Corinthians no Morumbi, último 16 de abril. Em uma disputa de bola, o goleiro, Renan Ribeiro, acabou levando um pisão. O árbitro Luiz Flávio de Oliveira mostrou cartão amarelo a Jô do Corinthians, por causa do lance.

Na sequência, então, Rodrigo Caio foi ao árbitro e avisou que havia sido ele quem pisara no goleiro são-paulino. O cartão a Jô acabou sendo retirado pela arbitragem. Com a bola rolando, o Corinthians venceu o São Paulo por 2 a 0, na primeira partida da semifinal do Campeonato Paulista.

Veja o lance

O mito

Segundo reportagem do globoesporte.com, o treinador Rogério Ceni, que até outro dia, era “o mito”, deu bronca no atleta por seu gesto de honestidade. O técnico, no intervalo, irritadíssimo com a falta de pegada do time, questionou o zagueiro se ele sabia que Jô estava pendurado. Artilheiro dos clássicos no Campeonato Paulista, Jô seria, na visão de Ceni, uma ausência importante para o São Paulo tentar reverter uma situação que já era delicada. Rodrigo disse que não sabia e julgava ter tomado a decisão correta.

Na entrevista depois da derrota, o técnico elogiou a atitude e também ironizou ao dizer que ele fez o que todos fazem. No vestiário, foram várias as citações ao próprio Jô, que estava impedido ao marcar o primeiro gol, e, após o jogo, ao goleiro Cássio, que teria simulado ser atingido por Lucas Pratto no segundo tempo, na tentativa de um cartão para o argentino.

– (Rodrigo Caio) Foi um gentleman, é uma atitude que vocês têm que parabenizar porque ele é um menino bom. Jogou o jogo do fair play, assim como todos fazem durante uma partida – disse o técnico.

Repercussão do caso:

No dia seguinte ao clássico, já ficou claro que nem todo mundo deu nota 10 para a postura do são-paulino. O zagueiro Maicon, por exemplo, mostrou ironia na hora de comentar o caso. “Se foi certo ou não, é da consciência de cada um. Mas eu prefiro a mãe do meu adversário chorando em casa do que a minha”

“Essa atitude nos dá uma responsabilidade muito grande na próxima vez que acontecer. Se acontecer com a gente tem que fazer igual. Tem de ser um ser humano honesto e ganhar a vida com dignidade. Aqui no grupo todo mundo entende assim “, afirmou Jô.

“Em uma época de notícias podres, um pequeno gesto de grandeza de Rodrigo Caio do São Paulo deve ser exaltado. Parabéns”, disse o jornalista Milton Neves.

“Ato de Rodrigo Caio violentou os brasileiros”, disse o jornalista Flávio Prado.

“Migué vai ser criminalizado, o teatro vai ser mais difícil” – disse o escritor e comentarista Xico Sá da SporTv.

“Para mostrar aos que ainda não são profissionais. Obrigado, Rodrigo Caio”, escreveu o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez em sua rede social.

Rodrigo Caio não é caso isolado

Esse gesto é raríssimo no esporte e mais raro ainda no futebol, mas não foi o único.

Marcelo Moreno

Quando defendia o Cruzeiro, Marcelo Moreno evitou uma confusão do árbitro Elmo Alves Resende Cunha em partida contra o Botafogo. O juiz interpretou que o lateral Júnior César tinha recuado a bola para Jefferson e marcou tiro livre indireto. Mas o atacante do time mineiro avisou que tinha relado na bola e a infração foi cancelada.

Vertonghen

Em jogo entre Ajax e Den Haag na Holanda, Vertonghen foi devolver a bola ao adversário e acabou acertando um chute no ângulo. Para compensar a confusão, os atletas do Ajax deixaram os rivais marcarem um gol.

Boa Corrida – Opinião

O futebol é o esporte mais popular no mundo, tem seguidores de todas as idades, muitas crianças tem os atletas como referências, ídolos. Tudo que acontece no futebol repercute de forma gigantesca. Esse tipo de comportamento vai muito além do futebol e do esporte, tem repercussão na sociedade em geral.

Eu me lembro, por exemplo, do famoso gol de mão do Maradona no jogo entre Argentina e Inglaterra na Copa de 1986. Neste jogo, o craque argentino foi bastante elogiado, sim, ele fez outro golaço antológico no jogo. O camisa 10 saiu daquela Copa como campeão pela Argentina, se tonou um dos maiores ídolos do esporte, e o lance ilegal é conhecido mundialmente até hoje como “Lá Mano de Dios” – A mão de Deus.

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Copa do Mundo de 1986 – México

O Rodrigo Caio fez só o que se espera de um cidadão de bem – seja ele professor, advogado, médico, vendedor, servidor público, político ou atleta – . Ele não fez nada demais, essa atitude deveria ser normal.

Mais triste do que esse lance ser raro é ver a total inversão de valores em torno da atitude ética do jogador.

Enquanto vivemos um momento crítico na politica do nosso país por motivo de roubo e corrupção, um ato de honestidade de um jogador de futebol é considerado por alguns companheiros de equipe, torcedores, jornalistas, como um ato de infantilidade do atleta. Parece que o certo é sempre levar vantagem sobre tudo, não importa o modo como você irá conseguir essa vantagem. No momento em que o país clama contra a corrupção quase generalizada em que vivemos, um jogador é “condenado” por um ato de honestidade. Tenho esperança de dias melhores.

 

 

Um grande abraço, cuide-se, corra e seja feliz!

Edgar Santana

Créditos: Uol, G1, Estadão, globoesporte.com, Wickpedia